EDITORIAL No mundo realmente reinvertido, o verdadeiro é um momento do falso. Isto não é um editorial. Isto não é uma apresentação. Isto não é um texto poético, dramático ou informativo. Isto não é sequer uma ruptura. São apenas palavras que se juntam anarquicamente em guerra contra o óbvio, previsível e expectável. Querem algo novo e diferente? Todos queremos. Queremos? Miguel Esteves Cardoso senta-se aqui ao meu lado e grita-me, como nas confissões pujantes do velho da tasca, que difícil é ser conservador. Complicado é manter. Impossível é realmente estancar o tempo. Talvez porque sejamos apenas uns insatisfeitos crónicos que lutam pelo “r” que cai da revolução e não pela evolução das mentalidades. Eu sei, Augusto Rocha Soares, que o Portugal aprisionado em cartazes velhos e militares armados de sonhos é o mesmo dos desempregados munidos de recibos verdes que a Rita Rato denuncia. Eu sei que a nossa casa é uma ruína feita museu pelo Ricardo Carvalho e Joana Vilhena mas também uma sociedade sem tecto nem fundições como nos apresenta o Luís Augusto Campos. Nuno Seabra Lopes, eu até sei que o digital não vai substituir completamente as nossas vidas de carne e osso e que iremos mudar página a página os nossos capítulos. Contudo, pergunto a cada olhar perdido dum velho no jardim para quê a ruptura quando todos queremos apenas certezas. Queremos a paz, o pão, habitação… Ilustremos a vida, como a Mariana Fernandes, e sejamos os senhores dos fatos impecavelmente engomados na esperança de esconder a nossa animalidade mais primária. Pensemos um filme recente à luz de um álbum dos anos 90 e a forma como o tempo do reconhecimento acaba sempre por chegar, como o André Santos aponta. Porque tudo tem o seu tempo, até o do dia seguinte a uma noitada, o do disco mítico ou da batalha que não queremos mesmo combater. Vejamos os casos perdidos na ONU no passado duma ditadura há muito abandonada a si mesma, como apresenta Ana Lobato, ou a guerra invisível na Nigéria que não a deixa encontrar-se com o futuro, como mostra Raquel Duque. Valorizemos a multidisciplinaridade na recriação das memórias e do tempo, porque ele não corta mas é uma dolorosa fenda aberta quando o pensamos, afirmam os Vivóeusébio. E porque a vida não é um texto poético feito de palavras cruéis, um take da Lusa com historietas de encantar ou um recorrente baile de debutantes, isto não é uma ruptura. Não o pretende ser. É apenas um paradoxo sob a forma de uma pergunta. E, voltando à frase que roubei ao texto da Cartografia do impasse presente , neste mundo invertido onde vivemos no engano fica a questão: afinal a ruptura é um realmente um desafio ou uma inevitabilidade?
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