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EDITORIAL Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that. Nos dias que correm, o “jogo da bola” é mesmo uma coisa séria, seja em Portugal, no Irão, na Coreia do Norte ou nos Estados Unidos. Criado e definido nos circunspectos colégios ingleses e imbuído de uma ética vitoriana, trilhou-se um grande caminho desde as reuniões em 1863 na Freemasons' Tavern em Londres, nos primórdios do Association Football – nome real deste desporto. Sepp Herberger, mítico treinador da Mannschaft, que comandou uma Alemanha ainda ferida no orgulho e venceu contra todas as probabilidades o Mundial de 1954 perante a memorável Hungria de Sebes e Puskas, referia, resumindo, que “a bola é redonda, o jogo tem uma duração de 90 minutos, tudo o mais é pura teoria". Talvez. Mas hoje, com o advento das alterações entretanto sentidas e com a mutação constante do contexto vivido, ele não termina mais com o apito final do árbitro e com o regresso dos jogadores aos balneários, continua nas palavras de presidentes, comentadores e treinadores, no consumismo do merchandising , na troca de acções na bolsa, nos jornais desportivos e nas conversas de café. Tudo motivado pela irracionalidade despertada por um jogo simples de dezassete regras, que na sua forma simples apenas necessita de uma bola, ou não fosse o futebol o mais democrático e universal dos desportos. Podíamos, por isso, dizer que no futebol não há classes, género, cor ou política. Podíamos. Mas então como explicaríamos o Ronaldinho da favela e o Kaká do condomínio privado? O Maradona de Villa Fiorito nos pobres subúrbios urbanos de Buenos Aires ou o Pelé de Três Corações, na rural Minas Gerais? Como poderíamos falar do quase anonimato de Marta Vieira da Silva e da fama de Messi? Como explicar um verde rubro e popular Clube Sport Marítimo, fundado a poucos dias da hoje quase centenária República, em contraponto com um, na altura, mais aristocrata e monárquico azul e branco Club Sports Madeira? Como se pensariam os casos de racismo que varreram a Europa nos anos oitenta e o exemplo de Leônidas da Silva no Brasil, mestiço e inventor do pontapé de bicicleta, tido como símbolo máximo do verdadeiro homem brasileiro pelo regime integrista naquele país, na década de trinta? Como explicaríamos o discurso de Getúlio Vargas no intervalo do jogo do Vasco da Gama (no 1º de Maio de 1943) ou o intervencionismo de Matthias Sindelar, figura de referência do futebol austríaco e dínamo do Wunderteam austríaco da década de trinta, também famoso pelas suas acções anti-nazis? Futebol é jogo de extremos. É possível descortinar maniqueísmos, como a discussão argentina entre o menotismo e o bilardismo, qual ying e yang, um a verdadeira antítese do outro em termos de estética e postura. Menotti fascinado pela beleza do Brasil de setenta e centrado na descoberta do verdadeiro jogador argentino, e Bilardo, baluarte do vitorioso mas odiado Estudiantes de la Plata, equipa que domina o futebol argentino e sul-americano em finais da década de 60, com o seu anti-futebol odiado por todos. Futebol é também agregação. As suas competições forneceram muitas vezes o único ponto real de contacto, entre povos de um ocidente e um leste europeu rasgados por uma cortina de ferro que, segundo Churchill, descia desde Stettin no Báltico até Trieste no Adriático. Geraram-se mitos, construíram-se lendas, tentou-se arranjar explicações para o simbolismo de uma mão de deus ou para o desalento que constituiu o Maracanazo para o Brasil em 1950. Futebol funciona ainda como catalizador de guerras, como a ocorrida entre San Salvador e Honduras, em 1969, mas foi e é igualmente um importante instrumento de Paz, vide iniciativa do Centro Peres para Paz com escolas mistas de futebol para crianças israelitas e palestinianas. Mesmo sem se ser um adepto fervoroso, é inegável que o futebol está por todo o lado na sociedade. É incontornável, mesmo que reprovável, que o país pare com a selecção, com o título do Benfica, ou com os golos do Cristiano Ronaldo e as vitórias do Mourinho. Porque o futebol continua a ser um jogo de emoções e afectos que se pauta ao ritmo de imponderabilidades e surpresas. Porque esperamos que "haja Taça”. Porque, excepto se for o clube do nosso coração, tendemos mais para o David do que para o Golias. Ou porque simplesmente não há regras a priori nem verdades absolutas. Porque não há vencedores à partida, nem a Alemanha ganha sempre no fim, como disse uma vez Lineker. Porque até a geometria tem regras novas, e o losango ou o vértice mais recuado são apenas partes dum incompleto que se cria ao gosto do treinador de bancada. O futebol continuará, como no passado, a ser jogado por onze jogadores contra outros onze, mas a bola há muito que saiu das quatro linhas. Passou para o arquitecto que desenha e pensa o estádio enquanto espaço de lazer e entretenimento, como nos revelam os dois projectos apresentados por Tomás Taveira, ou ainda para o imaginário do poeta e escritor Landeg White que reflecte sobre a identidade portuguesa e a mística benfiquista, neste número analisado por Rui Alberto Costa. Apesar de todos os constrangimentos que o futebol feminino sentiu ao longo da história, a bola também rola nas palavras de Inês Quintanilha e não pode ser parada pelas entradas a pés juntos de um Videla ou de um qualquer esquema político. O jornalista Rui Miguel Tovar decifra o Mundial de 1978 através da (re)interpretação das ocorrências fora dos relvados. E hoje, mais do que nunca... muito acontece Fora do Jogo, como as fotografias de Ricardo Santeodoro atestam. E hoje mais do que nunca... ir ao estádio é uma decisão de ser parte do espectáculo, e tal como Susana Jaulino escreve ao fazer o paralelismo com a ida a um concerto, há inúmeras razões para o fazermos. Agarrar o irrepetível, prender o momento, guardar aquelas memórias ad aeternum são apenas alguns dos motivos para se sair de casa e ir a um concerto, mas são também as razões para apreciar pérolas e surpresas da culinária como a Miragem de Ostra Petrificada no Deserto que o chef José Avillez nos propõe neste número. E, pelo contrário, há ainda todo um mundo de formas e objectos do quotidiano que habitam o olvidado mundo dos esquecimentos involuntários, como o investigador Alexandre Pólvora relembra. Há todo um mundo de cores e formas que efectivamente modelam as percepções do real, e é assim hoje tal como era nos tempos da Bruynzeel House, que o designer Miguel Meruje introduz. Destaca-se ainda o artigo de Paulo Barcelos sobre a mais recente encíclica de Bento XVI - Caritas in Veritate - e a análise dos princípios e conceitos que a norteiam. Uma das concepções fundamentais que é defendida na encíclica é a necessidade de maior solidariedade acompanhada de uma efectiva subsidiariedade nas relações económicas e sociais – do qual uma taxa Tobin é um bom exemplo que serviria para atenuar as evidentes assimetrias existentes. E essas no futebol também existem, não sendo de todo estranho que no mundo pós-Bosman também se fale da pertinência de uma iniciativa a esta análoga para esbater o fosso entre clubes ricos e clubes formadores de jogadores. Denis Law indicou uma vez que a única coisa que nunca mudou na história do jogo tinha sido a forma da bola. Provavelmente terá razão. Mas cremos que há outra premissa que sempre será imóvel. Aquele sentimento pueril de bem-estar ao jogar uma peladinha. Ou a descarga de adrenalina ao festejar um golo. É com esse sentimento e olhando ao resultado desta edição que, tentando ensaiar o melhor passe de letra possível, vos entregamos a redondinha. Para que embarquem connosco nesta redescoberta deste fantástico desporto. Como um verdadeiro jogo de equipa. Afinal de contas são onze contra onze e tudo pode acontecer. |
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