Sociedade e Mundo

# Um Campeão por Encomenda: Argentina'78
Rui Miguel Tovar

A justiça através da encíclica Caritas in Veritate
Paulo Barcelos

Ciências Sociais

# "The game of football is quite unsuitable for females
and ought not to be encouraged."
História da resistência ao Futebol Feminino

Inês Quintanilha

Uma defesa crítica do mais ordinário contra alguns
esquecimentos do quotidiano

Alexandre Pólvora

Arquitectura e Design

#Estádio de São Petersburgo e Estádio do Palmeiras
– dois projectos na língua do futebol

Tomás Taveira

Cor e Forma na Arquitectura
- Bruynzeel e Schröder House

Miguel Meruje

Arte e Entretenimento

Vamos ao concerto, porquê?
Susana Jaulino

Espaço Criação

# Fora do Jogo
Ricardo Santeodoro


EDITORIAL
João Tibério e Aires Gouveia

Some people think football is a matter of life and death. I assure you, it's much more serious than that.
Bill Shankly

Nos dias que correm, o “jogo da bola” é mesmo uma coisa séria, seja em Portugal, no Irão, na Coreia do Norte ou nos Estados Unidos. Criado e definido nos circunspectos colégios ingleses e imbuído de uma ética vitoriana,  trilhou-se um grande caminho desde as reuniões em 1863 na Freemasons' Tavern em Londres, nos primórdios do Association Football – nome real deste desporto. Sepp Herberger, mítico treinador da Mannschaft, que comandou uma Alemanha ainda ferida no orgulho e venceu contra todas as probabilidades o Mundial de 1954 perante a memorável Hungria de Sebes e Puskas, referia, resumindo, que “a bola é redonda, o jogo tem uma duração de 90 minutos, tudo o mais é pura teoria".

Talvez. Mas hoje, com o advento das alterações entretanto sentidas e com a mutação constante do contexto vivido, ele não termina mais com o apito final do árbitro e com o regresso dos jogadores aos balneários, continua nas palavras de presidentes, comentadores e treinadores, no consumismo do merchandising , na troca de acções na bolsa, nos jornais desportivos e nas conversas de café. Tudo motivado pela irracionalidade despertada por um jogo simples de dezassete regras, que na sua forma simples apenas necessita de uma bola, ou não fosse o futebol o mais democrático e universal dos desportos.

Podíamos, por isso, dizer que no futebol não há classes, género, cor ou política. Podíamos. Mas então como explicaríamos o Ronaldinho da favela e o Kaká do condomínio privado? O Maradona de Villa Fiorito nos pobres subúrbios urbanos de Buenos Aires ou o Pelé de Três Corações, na rural Minas Gerais? Como poderíamos falar do quase anonimato de Marta Vieira da Silva e da fama de Messi? Como explicar um verde rubro e popular Clube Sport Marítimo, fundado a poucos dias da hoje quase centenária República, em contraponto com um, na altura, mais aristocrata e monárquico azul e branco Club Sports Madeira? Como se pensariam os casos de racismo que varreram a Europa nos anos oitenta e o exemplo de Leônidas da Silva no Brasil, mestiço e inventor do pontapé de bicicleta, tido como símbolo máximo do verdadeiro homem brasileiro pelo regime integrista naquele país, na década de trinta? Como explicaríamos o discurso de Getúlio Vargas no intervalo do jogo do Vasco da Gama (no 1º de Maio de 1943) ou o intervencionismo de Matthias Sindelar, figura de referência do futebol austríaco e dínamo do Wunderteam austríaco da década de trinta, também famoso pelas suas acções anti-nazis?

Futebol é jogo de extremos. É possível descortinar maniqueísmos, como a discussão argentina entre o menotismo e o bilardismo, qual ying e yang, um a verdadeira antítese do outro em termos de estética e postura. Menotti fascinado pela beleza do Brasil de setenta e centrado na descoberta do verdadeiro jogador argentino, e Bilardo, baluarte do vitorioso mas odiado Estudiantes de la Plata, equipa que domina o futebol argentino e sul-americano em finais da década de 60, com o seu anti-futebol odiado por todos.

Futebol é também agregação. As suas competições forneceram muitas vezes o único ponto real de contacto, entre povos de um ocidente e um leste europeu rasgados por uma cortina de ferro que, segundo Churchill, descia desde Stettin no Báltico até Trieste no Adriático. Geraram-se mitos, construíram-se lendas, tentou-se arranjar explicações para o simbolismo de uma mão de deus ou para o desalento que constituiu o Maracanazo para o Brasil em 1950.

Futebol funciona ainda como catalizador de guerras, como a ocorrida entre San Salvador e Honduras, em 1969, mas foi e é igualmente um importante instrumento de Paz, vide iniciativa do Centro Peres para Paz com escolas mistas de futebol para crianças israelitas e palestinianas.

Mesmo sem se ser um adepto fervoroso, é inegável que o futebol está por todo o lado na sociedade. É incontornável, mesmo que reprovável, que o país pare com a selecção, com o título do Benfica, ou com os golos do Cristiano Ronaldo e as vitórias do Mourinho. Porque o futebol continua a ser um jogo de emoções e afectos que se pauta ao ritmo de imponderabilidades e surpresas. Porque esperamos que "haja Taça”. Porque, excepto se for o clube do nosso coração, tendemos mais para o David do que para o Golias. Ou porque simplesmente não há regras a priori nem verdades absolutas. Porque não há vencedores à partida, nem a Alemanha ganha sempre no fim, como disse uma vez Lineker. Porque até a geometria tem regras novas, e o losango ou o vértice mais recuado são apenas partes dum incompleto que se cria ao gosto do treinador de bancada.

O futebol continuará, como no passado, a ser jogado por onze jogadores contra outros onze, mas a bola há muito que saiu das quatro linhas. Passou para o arquitecto que desenha e pensa o estádio enquanto espaço de lazer e entretenimento, como nos revelam os dois projectos apresentados por Tomás Taveira, ou ainda para o imaginário do poeta e escritor Landeg White que reflecte sobre a identidade portuguesa e a mística benfiquista, neste número analisado por Rui Alberto Costa.

Apesar de todos os constrangimentos que o futebol feminino sentiu ao longo da história, a bola também rola nas palavras de Inês Quintanilha e não pode ser parada pelas entradas a pés juntos de um Videla ou de um qualquer esquema político. O jornalista Rui Miguel Tovar decifra o Mundial de 1978 através da (re)interpretação das ocorrências fora dos relvados. E hoje, mais do que nunca... muito acontece Fora do Jogo, como as fotografias de Ricardo Santeodoro atestam.

E hoje mais do que nunca... ir ao estádio é uma decisão de ser parte do espectáculo, e tal como Susana Jaulino escreve ao fazer o paralelismo com a ida a um concerto, há inúmeras razões para o fazermos. Agarrar o irrepetível, prender o momento, guardar aquelas memórias ad aeternum são apenas alguns dos motivos para se sair de casa e ir a um concerto, mas são também as razões para apreciar pérolas e surpresas da culinária como a Miragem de Ostra Petrificada no Deserto que o chef José Avillez nos propõe neste número. E, pelo contrário, há ainda todo um mundo de formas e objectos do quotidiano que habitam o olvidado mundo dos esquecimentos involuntários, como o investigador Alexandre Pólvora relembra. Há todo um mundo de cores e formas que efectivamente modelam as percepções do real, e é assim hoje tal como era nos tempos da Bruynzeel House, que o designer Miguel Meruje introduz. Destaca-se ainda o artigo de Paulo Barcelos sobre a mais recente encíclica de Bento XVI - Caritas in Veritate - e a análise dos princípios e conceitos que a norteiam. Uma das concepções fundamentais que é defendida na encíclica é a necessidade de maior solidariedade acompanhada de uma efectiva subsidiariedade nas relações económicas e sociais – do qual uma taxa Tobin é um bom exemplo que serviria para atenuar as evidentes assimetrias existentes. E essas no futebol também existem, não sendo de todo estranho que no mundo pós-Bosman também se fale da pertinência de uma iniciativa a esta análoga para esbater o fosso entre clubes ricos e clubes formadores de jogadores.

Denis Law indicou uma vez que a única coisa que nunca mudou na história do jogo tinha sido a forma da bola. Provavelmente terá razão. Mas cremos que há outra premissa que sempre será imóvel. Aquele sentimento pueril de bem-estar ao jogar uma peladinha. Ou a descarga de adrenalina ao festejar um golo.

É com esse sentimento e olhando ao resultado desta edição que, tentando ensaiar o melhor passe de letra possível, vos entregamos a redondinha. Para que embarquem connosco nesta redescoberta deste fantástico desporto. Como um verdadeiro jogo de equipa. Afinal de contas são onze contra onze e tudo pode acontecer.

 

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