"Não sei se os tropas que estavam no governo naquela altura nos utilizavam, não sei. Certamente, sim, porque faziam o mesmo com todos. Mas uma coisa não desmerece a outra. Não se pode sujar o nosso triunfo por causa dos militares, nem devem ficar com dúvidas do que penso deles. Gajos como o Videla, que fizeram desaparecer 30.000 tipos não merecem nada.(...) Gajos como o Videla fazem com que o nome da Argentina esteja sujo lá fora.(...)"[1] Em 1976, um golpe de Estado coloca o sinistro general Videla no poder. Algumas interrogações levantam-se quanto à disponibilidade da Argentina realizar a prova[3], mas a Junta Militar assegura o sucesso da prova, com o suspeito apoio do brasileiro João Havelange, presidente da FIFA, que dá preferência à candidatura argentina relativamente à do seu país. Muitos jogadores, como o francês Platini, o holandês Cruijff e até o argentino Carrascosa, tentam convencer a FIFA a trocar de organizador, devido ao regime totalitário de Videla e constantes violações aos direitos humanos. Apesar da polémica e das duas desistências (Cruijff e Carrascosa), a competição decorre normalmente. Pelo menos, fora de campo. Dentro dele, Itália e Holanda apresentam a candidatura ao título. Os italianos vencem a Argentina e obrigam os anfitriões a viajar da capital Buenos Aires para Rosário. A “laranja” perde com a Escócia, possibilitando ao Peru do ex-portista Cubillas a qualificação para a segunda fase em 1.º lugar do grupo! Centremo-nos pois no Peru, inserido no grupo de Argentina, Brasil e Polónia. Só o primeiro chega à final. Contra o que é da mais elementar regra, os jogos da derradeira jornada não são à mesma hora. Assim, quando a Argentina entra em campo para jogar com o Peru, já sabe o resultado do Brasil (3-1 à Polónia) e o que fazer para ir à final: “basta” ganhar por quatro golos de diferença. Foi 6-0, com o guardião peruano Quiroga (nascido na Argentina, mais precisamente em Rosário, onde decorre o jogo) pouco convincente. Mas houve mais culpados. A ligação Argentina-Peru começa muito antes desse jogo entre as duas selecções. Na qualificação para o dito Mundial, Peru e Chile decidem a qualificação na última jornada, em Março de 1977. A Videla, o chefe da Junta Militar, não lhe cai bem o ditador chileno Augusto Pinochet. Politicamente falando[4]. No campo desportivo, o Peru ganha 2-0 em Lima e alivia os problemas para a Argentina. Por ora... Um ano e meio depois, o Peru está prestes a entrar em campo para jogar com a Argentina. Em causa, um lugar na final entre as selecções da Argentina e do Brasil, que vê o jogo pela televisão no seu hotel. Antes de subirem ao relvado, os jogadores peruanos recebem a invulgar visita do general “mão de ferro” argentino Videla, acompanhado por Henry Kissinger, ex-Secretário de Estado dos EUA, e fala-se de um crédito não reembolsável de quatro mil toneladas de trigo para o Peru. Essa oferenda a juntar ao estranho pedido do seleccionador peruano Marcos Calderón de jogar nessa noite com o equipamento alternativo alimentam a polémica, já alicerçada na véspera com um telefonema de Francisco Morales Bermúdez, general peruano, ao capitão de equipa, Hector Chumpitáz, a desejar-lhe boa sorte de forma enigmática. “Sei que alguns de vocês não podem fazer tudo o que está ao vosso alcance” . No relvado, Quiroga, Chumpítaz, Rojas, Manzo (que, na semana do jogo, curiosamente se transfere de uma equipa do Peru para uma argentina, o Velez Sarsfield) e Gorriti explicam como se fabrica um finalista mundial. No 2-0, o central Chumpítaz e o lateral-esquerdo Rojas (que nunca jogara no Mundial) deixam passar Kempes. A bola vai sair mas Quiroga atira para canto! Na sequência, Tarantini marca de cabeça. O seu marcador (Manzo) deu um salto semelhante a um movimento de ballet. Aos 47 minutos, o seleccionador Calderón substitui José Velásquez, o irrequieto extremo direito do Peru. Entra Raul Gorriti, responsável pelo 4-0 de Luque e pelo 5-0 de Houseman. A farsa acaba em 6-0. Prostrados à porta do balneário peruano, todos os jornalistas, argentinos, peruanos, ingleses, franceses e outros, ouvem a frase de um revoltado: “Bando de merdas. Espero que repartam bem o dinheiro” . Ninguém sabe qual o jogador que a proferiu. Ao 6-0 ao Peru segue-se o 3-1 à Holanda, na noite da consagração. Os holandeses recusam-se a receber as medalhas de vice-campeões e a apertar a mão ao General Videla. No lado argentino, festa rija. É o prémio para um povo oprimido e descontente. O grande prémio, esse, só surgiria alguns anos mais tarde, com a queda de Videla. Mas isso proporciona mais poeira que sei lá o quê. Numa autobiografia, Chumpítaz, capitão de equipa peruana, acusa o guarda-redes Quiroga. “Ele podia ter evitado pelo menos dois golos. Bastava ficar parado.” Manzo, o tal defesa-central vendido a um clube argentino na semana do jogo, nunca mais pôde voltar à sua terra-natal, em San Luís de Cañete. “Chamavam-me de tudo” . Ele agora é pedreiro. Em Buenos Aires. Na década de 90, Fernando Rodríguez Mondragón, líder do cartel colombiano, revelou os culpados do Peru. “Quiroga e Chumpítaz minaram tudo”. Por acaso, a Colômbia tinha ligações privilegiadas com o general argentino Videla em 1978, por altura do Mundial. Já para não falar na coincidência macabra das mortes. Rojas, o lateral-esquerdo que só fez um jogo nesse Mundial, precisamente com a Argentina, morreu num acidente de aviação em 1981. Marcos Calderón, o seleccionador do Peru, também morreu, noutro acidente de aviação, em 1987. E Juan Alemann, secretário da Fazenda da Argentina, que era contra a organização do Mundial num país em crise absoluta e defendia a contenção de custos[5], foi assassinado. Uma bomba explodiu na sua casa, no preciso momento do 4-0. O golo que qualificava a Argentina para a final. É uma pena e uma vergonha mas os dados são mais que evidentes. A Argentina ganhou o Mundial-78 por encomenda. Um presente político para sustentar a politica. Um presente de Videla para si mesmo. Um presente envenenado para o povo argentino e o resto do mundo, que percebia o caos de um país, sustentado numa repressão de qualquer cultura ideológica e política contrária ao regime com a violação sistemática dos direitos humanos, mediante assassinatos, prisões e torturas[6]. Já chega, dirá qualquer um. Sim, já chega. Mas esta Argentina de Videla, comandante do exército, junto a Agosti (Força Aérea) e Massera (Forças Armadas), que acabou com o governo democrático de Maria Estela Martínez de Perón, Isabelita, foi capaz de uma outra atrocidade inimaginável. A de forjar uma carta do capitão holandês Ruud Krol à sua filha, escrita em inglês!, para defender a imagem do país, através de um revista desportiva chamada El Gráfico[7], que ainda hoje se publica e se penitencia pela propaganda maldosa e enganadora. Uma anedota que resume o Mundial em si. CARTA À MINHA FILHA Minha preciosa: A tua mãe vai ler-te esta carta. Quero dizer-te antes de mais que sinto muito a tua falta, ainda que a tua fotografia e o teu sorriso andem sempre comigo. Já comprei a boneca que te prometi. É ruiva como tu e tem um par de olhos iguaizinhos aos teus. Anda, fala e quando eu regressar a casa só me estou a ver a brincar com ela e contigo, deitados na sala de estar. A mamã contou-me que choraste um dia destes porque alguns amigos teus do colégio disseram-te coisas muito feias sobre a Argentina. Mas não é assim. É uma mentira infantil deles. O papá está muito bem. Aqui tudo é tranquilidade e beleza. Isto não é o Mundial de futebol, é o Mundial da Paz. Não te assustes se vires alguma foto minha com soldados verdes ao meu lado. Eles são nossos amigos. Cuidam e protegem-nos. Querem-nos fazer bem como toda a gente deste país, que demonstra o seu afecto por nós desde que aterrámos. No aeroporto, por exemplo, esperaram-nos com bandeiras da Holanda, do nosso país, atiravam beijos para o ar e todas as mãos queriam tocar-nos. Todas as noites, depois do jantar, levo o Principito (lembras-te dele? a nossa mascote) para o meu quarto e fico horas a falar com ele sobre ti, com a tua foto ao nosso lado. É ele que me tira da solidão que a tua ausência provoca. Ele adormece como tu, no meio das mesmas histórias que já te contei vezes sem conta. De manhã, muito cedo, ele acorda e sobe para a minha cama, como tu fazes aí em casa, quando procuras o calor do amor do papá e da mamã. E sabes o que ele me pergunta. “Sonhaste com Mabelle, Ruud?” Cada dia faz mais frio. Pelas janelas do hotel, vemos todos os dias a neve a cair. A paisagem é lindíssima mas faltas-me tu. Sorrio, porque estaremos juntos muito em breve. Não tenhas medo, o papá está bem, já comprou a tua boneca e um batalhão de soldados que cuidam dele. Que o protegem e que das suas armas saem flores. Diz aos teus amigos a verdade. Argentina é uma terra de amor. Algum dia, quando fores grande, poderás compreender toda a verdade. Amo-te, cuida bem da mamã, espera-me com um sorriso e pensa num nome para a tua nova boneca. Um grande beijo. Papá PS– Eu já escolhi um nome para a tua boneca: Argentina. Se queres um outro nome, diz-me. |
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