Sociedade e Mundo

#A Pólis que somos
Pedro Cordeiro

A Mnemónica Colectiva
Vítor Miguel de Freitas

Ciências Sociais

# Comunidades Virtuais na Internet:
O canal #Angola no IRC da PT-Net

André Correia

Processamento da Linguagem Natural
João Ricardo Silva

Arquitectura e Design

# A Cidade do Rio de Janeiro
Rita Braga Alves

NewKarma
Nuno Campos

Arte e Entretenimento

# Pólis, Comunidade e Museus:
(Re)clamar um Espaço Nosso

Lia Jorge

Desertos de Almas
Pedro Alves

Espaço Criação

#Manifesto A
Anónimo

Mindscapes
João Leal Lamy


EDITORIAL
João Tibério

São cidades! É um povo para o qual se ergueram estes Aleganís e estes Líbanos de sonho! Chalés de cristais e de madeira que se movem sobre trilhos e roldanas invisíveis.
Arthur Rimbaud

Maravilhosa, luz, branca, eterna, do amor, da perdição, e de Deus, são infindáveis os epítetos dados às cidades e todos eles procuram torná-las únicas, singulares, e especiais. A cidade é hoje, só por si, um organismo com vida própria, que transcende a sua estrutura arquitectónica e a soma de todos os que lá vivem. Contudo, há que frisar que pólis não é cidade. É mais ainda. O espaço urbano, mesmo que entendido no imaginário pós-industrial e na conceptualização e teses das escolas de Chicago ou funcionalistas, não encerra em si a abrangência que a pólis compreende.

A pólis é uma palavra do passado repetida à exaustão nos dias que correm, mostrando que a história é cíclica, e que há conceitos intemporais. Pese embora a evolução destes, a génese das principais características que atribuímos à pólis encontram-se originalmente nas cidade-estado gregas e na forma como a participação dos cidadãos era a base da sua organização política. Transportámos para a contemporaneidade as concepções clássicas de cidadania, democracia, participação cívica, política de proximidade e vestimos-lhes novas roupagens. Criámos novas gestus políticos , como os orçamentos participativos, museus etnográficos ou associações pelos diferentes direitos individuais e colectivos, porque somos homens de política. Porque a política está no nosso âmago. E porque a democracia, mesmo sabendo que é um lugar-comum, continua a ser a melhor das soluções.

A pólis nasce nos traços dos arquitectos e urbanistas que criam ou recriam cidades, como Niemeyer ou Haussmann; cresce nas acções cívicas dos seus habitantes, como os orçamentos participativos ou as assembleias municipais; vive no associativismo, quer ele seja político, religioso, artístico, juvenil ou menos jovem; evolui e consolida-se nas ideias de comunidade e de rede, sejam reais ou virtuais, palpáveis ou invisíveis.

Pedro Cordeiro, jornalista do Expresso e do Courrier International, percorre no seu artigo a história da pólis e as respectivas implicações desta na sua conceptualização actual. Termina referindo que ela é o que fazemos dela. Lia Jorge prossegue na mesma linha ao apontar os museus de Cuming e da aldeia da Luz como exemplos da construção dum acervo museológico em diálogo entre os seus responsáveis e as comunidades locais.

Pólis é fundamentalmente diálogo e comunicação. É confrontar e aceitar posições diferentes e opiniões divergentes. É compreender que comunicar é o primeiro passo da criação da comunidade quer seja ela real e física ou uma rede de sentimentos e relações não palpáveis. O antropólogo André Correia investiga e analisa os laços humanos e socioculturais que se encontram por detrás do canal#Angola do IRC, pois estes são um interessante exemplo da mudança de paradigma nas relações humanas, nesta nova pólis que é a Internet.

PROJECTO10 é uma revista digital porque também resulta deste novo tempo onde a literatura material recria-se e existe numa nova linguagem. Urge tudo saber, reagir a estímulos e sensações, e mesmo assim manter a nossa humanidade. Nesta era dos computadores, o desenvolvimento da Inteligência Artificial - que João Ricardo Silva descreve - é uma batalha fulcral neste momento da evolução tecnológica e humana, pois ela permite um acesso à informação mais rápido e melhor, quer seja num acervo museológico, numa pesquisa caseira ou numa empresa de topo. Mas, a Inteligência Artificial, e um hipotético mundo dominado por máquinas, abre caminho a questões morais e de ética, ainda mais presentes em tempos de guerra. Vítor Miguel de Freitas expõe esse assunto e avança no sentido da violência desde sempre ser indiscutivelmente aceite, quer seja em casos de guerra preventiva ou legítima defesa. Onde está a moral?

Não há mais tempo para pensar e questionar a acção humana e as suas repercussões, hoje temos que fazer e actuar. Somos todos parte da nossa pólis, e como tal temos a obrigação ética de agir, quer seja votando, criando espaços criativos, associando-nos, como esta revista o comprova ou simplesmente dando aos outros o controlo. Mas não podemos jamais perder a identidade, a nossa e a da nossa comunidade, mesmo que sejamos um Anónimo com nome. E é possível, porque como o próprio descreve no seu manifesto, que nos chegou via e-mail antes do fecho desta edição, o “povo anónimo é representado pelo pensamento de todos e de ninguém em particular. Não há um autor definido e singular.” Os seus stencils de provérbios populares em locais representativos do poder são um aviso provocador de que os anónimos também escrevem a pólis. Ao invés o grupo teatromosca agita consciências duma forma mais convencional, duma forma mais pedagógica ao lançar sementes para um futuro, onde a cultura será indubitavelmente fundamental. A sua dramaturgia contemporânea e internacional reforça o papel e objectivo comunitários da companhia sintrense, e promove o questionamento constante do seu público.

Também as colecções da New Karma , de Nuno Campos, defendem a Arte enquanto forma última de chegar a todos e de agir hoje, pensando e reflectindo no amanhã. Porque na pólis do presente não há mais espaço para a A rt for Art's Sake , e exige-se a tomada de posição dos indivíduos. Mesmo que esta surja num mundo onírico como o que João Lamy nos apresenta no seu trabalho.

O ciclo fecha-se e despedimo-nos com o regresso à cidade, à mais maravilhosa de todas canta o poeta, ao Rio de Janeiro. A arquitecta Rita Braga Alves transporta-nos com as suas palavras a uma viagem à antiga capital brasileira, à sua história e seu futuro. Porque a pólis vive nas histórias que cada um viveu. Roubando as palavras a Pedro Cordeiro - A pólis somos nós e o que dela fizermos. Sejamo-la, pois.

 

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