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Arte e Entretenimento | O Corpo como Mediador da Relação “(…)Só há um templo no mundo e é o corpo humano. Nada é mais sagrado que esta forma sublime. Inclinar-se diante de um homem é fazer homenagem a esta revelação na carne. O corpo é existência, comunicação, observação, é um veículo de expressão verbal e não-verbal, entidade multidimensional fortemente condicionada pela cultura e sociedade na qual a pessoa se insere.[1] Nas sociedades primitivas, o Homem considerava-se parte integrante da natureza e não distinto da mesma. A concepção de Homem era estabelecida numa relação recíproca e dinâmica com o seu meio envolvente, a natureza, considerando-se como elemento da mesma. O corpo era visto como um todo e não se sentia a necessidade de o espartilhar nos seus diferentes componentes porque a ideia que prevalecia era a de conjunto, de totalidade englobada num outro espaço ou universo mais amplo que era a natureza. Neste sentido, “ O pensar primitivo e, na sua sequência, o pensar tradicional ou popular (...), isto é, aquele que não se rege pela gramática do logos grego e cartesiano, não dissociam o corpo da pessoa, nem a pessoa da comunidade, nem o cosmos no seu conjunto ”[2]. Na Grécia Antiga, o pensamento cultural vigente exercia grande valorização sobre o corpo humano pelas suas potencialidades, pela sua beleza e pelas suas formas. Foi nesta época que se desenvolveu um conhecimento mais objectivo do corpo humano, baseado nas observações racionais sobre o mesmo. No mesmo período histórico-cultural, desenvolve-se o pensamento filosófico que se precipita inicialmente sobre questões relacionadas com o Homem e a sua existência. Os grandes pensadores gregos debruçaram sobre a problemática do corpo, Platão e Sócrates entendiam o corpo como reservatório da alma, tendo afirmado que o homem se distinguia entre “corpo exterior” e “alma interior”[3]. Mais tarde, Aristóteles introduz uma nova acepção à compreensão do corpo humano. Este pensador começa a valorizar o corpo não apenas enquanto veículo de expresão da alma, mas como entidade caracterizada por singularidade relativamente aos restantes elementos constitutivos da natureza. Introduz os termos “ sômata ” e “ physika ”, como dimensões diferenciadas do corpo humano, e que se assumiam uma relação dinâmica entre as mesmas. O corpo Aristotélico pode ser considerado como “ duas realidades que se constituem juntas numa mesma realidade, formando uma estrutura ou uma gestalt (...). Mas quando a alma se separa do corpo ele fica um cadáver e não mais um corpo.”[4] O pensamento religioso foi condicionado de forma significativa pelo pensamento filosófico, em que a concepção dualista corpo/alma foi consolidada no decorrer da história religiosa. Nesta perspectiva, o corpo enquanto dimensão física não tem valor próprio ou praticamente inexistente, apenas contribui para “albergar” a alma ou espírito[5]. Descartes, séc.XV, introduz uma nova concepção sobre o corpo, estabelecendo uma relação dual entre corpo-pensante e corpo-matéria que não exerce nenhuma função a nível da construção do produto intelectual, é deste pensador a expressão “cogito, ergo sum”, ou seja, “penso, logo existo”.[6] O paradigma Cartesiano radica-se na ideia de que o corpo (matéria) tem inscrição no mundo real, concreto e tangível, com existência independente do espírito ou da razão (intelecto). Esta perspectiva compartimentada do corpo, suscita o desenvolvimento dos alicerces do modelo biomédico, no qual os seres humanos são simplesmente “ compostos por células que originam os tecidos e por sua vez os órgãos e os sistemas”[7]. O desequilíbrio na interacção entre estes diferentes elementos constitutivos do corpo humano iria gerar a doença. Consolida-se a ideia de que o elemento doente “avariado” poderia ser facilmente substituído por outro. Esta perspectiva manteve-se durante vários séculos. Por volta do século XIX surge a perspectiva Fenomenológica que tem sido desenvolvida por vários autores, entre os quais salientamos Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty e Marcel.“ A fenomenologia pretende evidenciar a forma como fazemos existir o mundo para nós e descrever o corpo como lugar desta apropriação"[8]. Para estes autores, o mundo não está nas coisas mas na consciência que lhe dá um sentido. É esta consciência que faz com que o mundo apareça diante de si, tendo como ponto de ancoragem a corporeidade humana. Com o desenvolvimento das C.Sociais e Humanas, o estudo da problemática do corpo no âmbito das suas diferentes dimensões, voltou a ser muito valorizado. Assistimos ao culto do corpo-imagem, corpo-exterior, em que a sociedade se organizou em redor de um hiperinvestimento no corpo, no que se refere à sua dimensão estética. Um corpo que se subordina a um padrão de beleza socialmente estabelecido[9]. Se considerarmos o contexto de saúde, em particular, a prática de Enfermagem verifica-se que o contraste entre o corpo valorizado socialmente e o corpo doente é muito significativo. O corpo belo, esteticamente imaculado em franca oposição com o corpo envelhecido, frágil, patológico. Como valorizar o corpo do outro na relação que estabelecemos com este, tendo em conta a profunda ambiguidade referida anteriormente? Face à interrogação, será conveniente remetermo-nos à reflexão sobre o nosso próprio corpo, a subjectividade inerente ao mesmo . Qual a relação que estabelecemos com o nosso próprio corpo? E que relação tem o nosso corpo com os outros? A pessoa é uma realidade única que ao se tornar presente na relação com o outro, também constrói a sua identidade.[10] É sobre este corpo, provido de identidade e alteridade que reflectimos e através deste vivenciamos variadíssimas experiências próprias da vida humana, como tal, torna-se uma equívoco conceptual considerar o corpo separado da própria pessoa, pois nós não somos detentores de um corpo, somos o nosso corpo.[11] Corpo-matéria (físico) O ser humano necessita de corpo (corpo físico) para interagir com as outras pessoas, já que é o corpo que é observável pelo próprio e pelos outros. A corporeidade é um traço fundamental da existência humana porque nos permite estar em relação com o outro. O Homem é o único ser que consegue permanecer fora de si mesmo, existindo para si e para os outros. Estes dois aspectos, a facticidade e a transcendência são para Ourives o que “determina a abertura do sujeito ao mundo e que transforma o corpo fáctico em corpo vivido."[12] O corpo-objecto/físico compõe-se de um conjunto de órgãos que se relacionam entre si para formar sistemas que criam uma dinâmica própria, de forma a atingir a homeostase das funções fisiológicas que constituem a vida humana. A importância que a abordagem ao corpo-objecto desempenha para a nossa sociedade é inquestionável pelos inúmeros benefícios em que se traduz para as ciências, nomeadamente as ciências da saúde. Contudo, existem alguns riscos inerentes a este tipo de abordagem, precipitados pela possibilidade da valorização exclusiva da dimensão física do corpo. Uma abordagem necessariamente parcelar, a qual, nunca poderá ser encarado como uma visão global da pessoa. Torna-se então fundamental que o corpo seja perspectivado, numa dimensão que transcenda a redutibilidade de uma visão exclusivamente física do corpo humano, na medida em que o Corpo não é apenas a sua ocupação no espaço, tal como um objecto comum, mas uma entidade que se integra num determinado contexto espácio-temporal muito distinto do que um objecto normalmente ocupa. Corpo-vivido Merleau-Ponty[13] na sua obra Fenomenologia da Percepção , refere que antes de o corpo ser considerado um objecto, ele é uma dimensão da existência; é um corpo que passou por diferentes vivências; é um ser que emerge do mundo e se abre ao mundo: é um corpo-vivido. O corpo vivenciado surge da interacção do corpo objecto com a própria noção de subjectividade, interessando pois compreender de que forma este corpo, enquanto consciência corporal, vive no corpo vivenciado e como o sente. Só se pode compreender totalmente este corpo vivido se o vivermos, pois a forma única e pessoal como percepcionamos o mundo, impede-nos de ter uma compreensão total das vivências e experiências dos outros[14]. O processo de doença é uma experiência da vida humana que pode ser bem exemplificativa da perspectiva fenomenológica. De refererir, exemplo de um “corpo-mutilado” que foi submetido a uma amputação cirúrgica de um membro inferior. Frequentemente os doentes passam pelo fenómeno do “membro-fantasma” que se caracteriza pela vivência de sensações, como o movimento ou a dor, numa parte do seu corpo que já não existe, o membro amputado. Este fenómeno pode estar relacionado com o facto de todos termos uma consciência do nosso corpo-próprio de acordo com as nossas vivências. Esta memória da totalidade do seu corpo permanece mesmo quando existe uma transformação no corpo-físico, permanecendo a memória de um corpo-próprio ainda inalterado fisicamente. O “membro-fantasma” reflecte a memória do corpo-próprio que o sujeito tinha antes da mutilação. Nestas situações, a consciência corpórea da pessoa continua receptiva às acções que este membro exercia, e durante um determinado período de tempo não as vai esquecer. Assim se compreende que o corpo se expressa não enquanto objecto concreto e definível, mas como possibilidade de existência singular e não reproduzível por um outro sujeito[15]. Desta forma, o corpo é expressão de tudo o que constitui a subjectividade, desde os afectos, o desejo, o plano simbólico, a abstracção, a memória. O corpo-expressivo O corpo é ilimitado nas suas formas de comunicação com o outro, com o universo material que o rodeia e condiciona. O corpo tem inúmeras possibilidades de comunicação e por isso não pode ser reduzido à linguagem oral, pelo contrário, deve ser entendido na multiplicidade de linguagens que são expressas e transmitidas pelo corpo expressivo . O corpo é uma forma de expressão de inúmeras representações e significados, transmitidas não só pela linguagem verbal, mas também por meio da linguagem corporal, caracterizada por determinada postura ou linguagem sensorio-motora, que atribui evidência concreta à vivência de uma emoção, afecto, expresso ou não igualmente através da linguagem verbal É através desta capacidade de expressão que a pessoa comunica com os que estão à sua volta, utilizando uma linguagem já conhecida mas que, na vivência de cada um, recobre novos significados que irão renovar os já existentes. A importância da expressividade deve-se à “ possibilidade de me relacionar e de me encontrar com o outro e neste sentido o corpo humano não é o organismo que a anatomia e a fisiologia estudam mas é uma corporeidade expressiva que permite o encontro com o outro, e onde o outro encontra sempre um meio de acolhimento."[16]O sujeito enquanto corpo expressivo mantém com o mundo uma relação que ultrapassa o nível da objectividade, ao qual estão associados a pleíade emocional que cada vivido contempla. O corpo enquanto mediador da relação com o outro Como foi já referido, é por termos e sermos corpo que existimos perante os outros. É no corpo-próprio que se dá o encontro entre a minha consciência e a consciência do outro e é a partir dele que as coisas passam a existir em nós. Os sentidos permitem-nos ter, entre outras, percepções tácteis através das quais conseguimos observar o mundo como algo visível e tangível, atribuir-lhe um determinado sentido e uma intenção. O mundo passa a existir para cada um de nós de acordo com a capacidade sensitiva do corpo, que abre a sua consciência às coisas e aos outros. É o corpo-próprio que viabiliza a experiência subjectiva em relação ao outro, e é neste que o mundo se revela enquanto percebido e vivido pelo sujeito. Importa ainda referir que a forma como percebemos o mundo através do corpo-próprio está relacionada com a perspectiva segundo a qual o analisamos. A possibilidade de movimento que o nosso corpo nos oferece permite-nos apreender o mundo sob diferentes perspectivas e não nos limita a um olhar parcelar da realidade. Segundo Merleau-Ponty[17], existe outro factor que contribui para a caracterização deste corpo próprio: a afectividade. A afectividade não é exclusiva do corpo-sujeito, pelo contrário é uma ferramenta de relação com o outro. Assim, a escolha entre amar e não amar, cuidar ou não cuidar, estar em relação ou não estar, são expressão singular e única do sujeito face a determinado estímulo exterior. A apropriação dos outros e do mundo perante uma perspectiva afectiva não é algo reflexivo, é algo que está subjacente a este corpo-próprio e que permite que o outro tenha existência inscrita num determinado sentido. Na vida relacional estamos em constante apropriação de sentidos e significados em relação ao que nos rodeia. Mas esta apropriação investida de um forte cariz afectivo, selecciona o que vai de encontro ao nosso desejo, e rejeita a matéria não desejável. Esta escolha estrutura-se de acordo com as experiências que constituem o nosso corpo-vivido. O real plasmado na relação com o outro é mais complexo do que aparentemente suscita. Compreender que existe uma realidade subjacente ao corpo-objecto de cada sujeito, compromete-nos eticamente com a necessidade de ir ao encontro do corpo outro, no âmbito das diferentes dimensões e subjectividade que o caracteriza.
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[1] AUGUSTO, Berta [et al.] (2004) – O corpo e os cuidados. Coimbra: [2] REIS, Joaquim da Cruz (1998) – O sorriso de Hipócrates. A [3] OURIVES, Alzira da Conceição F. A. (1994) – A experiência de um [4]OURIVES, Alzira da Conceição F. A. (1994) – A experiência de um [5] LAWLER, Jocalyn (1997) – The Body in Nursing. Melbourne: [6] OLIVEIRA, Célia O. Piedade (2001) – Fenomenologia do corpo e os [7] OLIVEIRA, Célia O. Piedade (2001) – Fenomenologia do corpo e os [8] BARÃO, Amélia Margarida R. M. (1998) – O corpo e o cuidar: uma [9] SENA-LINO, Pedro (2002) – O corpo consumido: fascínio ou [10] RENAUD, Isabel (2004) – Situações do corpo e a ética do cuidado. [11] OURIVES, Alzira da Conceição F. A. (1994) – A experiência de um [12] OURIVES, Alzira da Conceição F. A. (1994) – A experiência de um [13] MERLEAU-PONTY, M. (1999) – Phenomenology of percpetion. In [14] SIVADON, Paul; FERNANDEZ-ZOÏLA, Adolfo (1988) – Corpo e [15] OLIVEIRA, Célia O. Piedade (2001) – Fenomenologia do corpo e [16] OURIVES, Alzira da Conceição F. A. (1994) – A experiência de um Polifroni, E. Carol: Welch, Mary Louise – Perspectives on Philosophy of science in nursing: un historical and contemporary anthology. Philadelphia: Lippincott, 1999. ISBN 0-7817-1201-7 p.328-338 |
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