Capa de Bruno Balegas

Editorial

Sociedade e Mundo

# Kosovo e o cubo de Rubik balcânico:
do nacionalismo ao extremismo.
Júlio Vasconcelos de Carvalho

Mudar Portugal, com a Nova Geração!
José Pedro Pereira

Ciências Sociais

# Extremista, será a tua tia!
Alfredo Caldeira

Alguns problemas antropológicos das políticas
públicas nas relações com os “ciganos”.

Micol Brazzabeni

Arquitectura e Design

# Copa do Mundo: o lado B
Bacco

Sobrados
Carla Caffé

Arte e Entretenimento

# The Good Reagan Years.
A violência no cinema americano dos anos 80.

Jorge Geraldo

Ta Tette, Ma Tette
Eduardo Guerra

Espaço Criação

# Life Journal
Rui Ventura

After Duchamp
Opirirists


EDITORIAL
João Tibério

Ir até ao extremo é ficar sem lugar,
porque o extremo não é um lugar,
mais além não há espaço
e quem foi até ao extremo
já não pode retroceder.

Roberto Juarroz

Chegar ao limite das forças, à ponta da ilha, à borda d'água, ao Extremo. E procuramos nós sempre tais situações como afirmava Kafka “A partir de um determinado ponto já não há retorno. É esse ponto que se tem de alcançar.”, ou preferimos antes aquela comfort zone feita de previsibilidades e comodismos?

Se o mundo fosse feito de equações matemáticas, então muito provavelmente extremismo seria igual a violência. E se esta fosse uma lei provada cientificamente, o século XX teria sido um caso de estudo paradigmático. Se o nobel William Golding afirmou que “ não posso deixar de pensar que este foi o século mais violento da história”, é porque viveu numa época com duas guerras mundiais, inúmeros conflitos e convulsões politicas, revoluções e golpes de estado, crises económicas sem igual e divergências políticas insanáveis. Foi um século negro, ou então apenas uma Era de Extremos , como Eric Hobsbawm definiu.

E, contudo parece que nada mudou com o novo século. A guerra e a violência não desapareceram, apenas se tornaram mais refinadas e discretas, como a guerra preventiva ou o cyberbullying . O mundo é hoje um arquétipo de extremos onde - e não caindo no lugar comum dos pobres mais pobres e ricos mais ricos - as dissimetrias avolumam-se sejam elas na educação, cultura, economia, entre os vários países ou dentro de cada um.

Se não se encontra a resposta à pergunta “como chegámos a este ponto extremo?”, é porque fazemos a pergunta errada. Porque não se questiona verdadeiramente o que é o equilíbrio, o respeito, o outro, o cosmopolitismo, a liberdade, a igualdade, ou a fraternidade. Falamos de valores que viraram apenas despojados chavões de marketing político.

A 28 de Junho de 1992, François Mitterrand visitou Sarajevo em plena guerra da Jugoslávia, sendo que esta data não foi casual nem inocente: era o aniversário do assassinato do arquiduque Francisco Fernando, em 1914. A Europa, e seus líderes políticos,  insistiam em não aprender a lição e o presidente francês procurava relembrá-los. Serviu de algo?

O passado recente, como Júlio de Carvalho apresenta no seu artigo sobre a história do conflito do Kosovo, ou a actual expulsão do povo rom de França que Micol Brazzabeni expõe no seu texto provam o contrário. As medidas extremistas de Sarkozy, já anteriormente postas em prática por Berlusconi, em 2007, levantam a questão sobre o próprio conceito de acção política extrema , e de como um discurso baseado no medo do outro pode originar que estas tomadas de posição não sejam repudiadas por toda a população. Em Extremista é a tua tia, Alfredo Caldeira apresenta diversas pistas de como este conceito é tantas vezes discutível e duvidoso, sendo maioritariamente usado “pela pacificação em vez da Paz” . Mais evidente e inquestionável é a análise de Jorge Geraldo sobre a violência no cinema americano nos anos 80 – The good Reagan years - , e como o action hero ou o(s) Rambo(s) são um exemplo do inevitável desejo de sangue, violência e patriotismo da parte dos espectadores americanos . Por seu lado, José Pedro Pereira afina o diapasão no sentido dos mais jovens fazerem valer os seus direitos em tempos tão difíceis como os actuais, apostando na educação como base da evolução social e económica.

O Brasil é um país-mundo que reflecte como poucos as franjas sociais que se encontram nos antípodas da sociedade, e é esse retrato que o atelier Bacco nos traz com o seu projecto Futebol – o lado B. Também a arquitecta Carla Caffé mostra essa realidade de intensos contrastes nas suas ilustrações da Av. Paulista, que resultam da sua colaboração com o jornal Folha de São Paulo.

Rui Ventura mostra ainda neste número uma nova peça díptica, que integra o seu trabalho Life journal , na qual se reúnem tão diferentes materiais e texturas como recortes publicitários, desenhos, pinturas, e colagens diversas. A dupla OPIRIRISTS apresenta o primeiro de uma série de pequenos episódios da série After Duchamp , sendo este dedicado à curadoria. Ainda no mundo das Artes temos a proposta de reflexão de Eduardo Guerra sobre a “possibilidade de semelhança” como resultado da sua residência artística em Budapeste.

E chegados a este lugar, que ainda não é um não-lugar, surge a questão: será natural o extremismo? Eduardo Lourenço lembra que a Democracia encontra a sua génese mais em Hobbes, Grácian, Schopenhauer ou Darwin do que numa essência natural da humanidade. Afirma mesmo, e duma forma provocatória, que “os homens são, naturalmente, não-democratas”. Se a frase assim descontextualizada parece forte, dura e violenta, a realidade histórica confere-lhe alguma razão. Os regimes extremistas, quer de índole política ou religiosa, sempre tiveram forte apoio popular e cederam mais por inépcia ou erros internos do que por revoltas ideológicas. E, se como o “povo” diz os extremos se tocam, fica a pergunta: será que quem foi até ao extremo já não pode retroceder?

 

Share |


© PROJECTO10 - 2010 . PROJECTO10 - Revista Digital Temática - 10 Números 10 Temas.