Não queremos retroceder ao Século XIX A República em Portugal já tem um século. Foi na manhã de 5 de Outubro de 1910 que, em Lisboa, se proclamou o fim da Monarquia. Com cem anos de distância, somos muitas vezes levados a pensar a História como uma coisa linear, como se os acontecimentos se tivessem sucedido sem conflito ou organização. Mas no início do século XX, Portugal experimentou exactamente o oposto. O culminar da primeira década do século, com a instauração da República, foi o resultado de muitas lutas e convulsões que continuariam para além daquele dia. O final do século XIX e início do século XX foram marcados por muitas e profundas mudanças tanto sociais, como políticas e económicas. O crescimento da indústria na viragem do século foi acompanhado pelo crescimento das cidades e por um aumento do sector terciário. Estas mudanças profundas na sociedade levaram à emergência de novos sujeitos políticos que não se sentiam representados na oligarquia monárquica que reinava, literalmente, o país. Exemplos bem sucedidos já tinham sido dados nalgumas monarquias europeias, que responderam a esta necessidade com a abertura à democracia. No caso português, optou-se pelo autoritarismo e pela repressão. Ao espírito republicano, que era semeado pela pequena burguesia e pelo conjunto das profissões emergentes, juntou-se a vontade revolucionária dos “humildes”. Operários fabris, estivadores, artesãos, entre outros, povoavam agora os centros urbanos de Lisboa, Porto e principais cidades. Tinham fugido do campo e encontravam-se agora numa situação de extrema pobreza e dificuldade. Sujeitos a longas jornadas de trabalho, com salários abaixo do próprio nível da subsistência, habitando em condições degradadas e sem qualquer protecção social nem segurança no emprego. À necessidade de voz e representação política, aliava-se a necessidade de lutar por melhores condições de vida. Assim se explica que o ano de 1909 tenha sido povoado por 173 greves por todo o país; a instabilidade social tomava contornos organizados em colectivos de operários que paravam o país com protestos. Já não é uma questão geracional. A precariedade afecta, hoje em dia, cerca de metade da classe trabalhadora em Portugal: cerca de um milhão de recibos verdes, um milhão de contratos a prazo; dois milhões precários num universo de 5,3 milhões de trabalhadores. A juntar aos desempregados completam metade da força laboral do país. A precariedade foi uma invenção formidável que se generalizou em nome da modernidade e nos volta a colocar no final do séc. XIX. Choca com as nossas expectativas e com a evolução da sociedade e há muito que deixou de ser um mero problema laboral. Temos a vida hipotecada. Vivemos pior do que os nossos pais, não temos autonomia e a emancipação surge muito tarde e cheia de incertezas e inseguranças. E se o contrato acaba? E se nos dispensam de um dia para o outro? E se não conseguimos dinheiro suficiente para pagar as despesas? Voltamos para casa dos pais? Não aceitamos que seja assim. Não aceitamos regredir até ao século dezanove. A História ensina-nos que é necessário não baixar as expectativas e que não nos devemos resignar e aceitar a austeridade que só toca aos mais fracos. Há que recusar a proposta da precariedade que hoje nos é apresentada como inevitável e lutar. |
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