Editorial

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# Berlim Abandonada
João Tomé

Habitar o Feminino - uma perspectiva feminista
Elisa Seixas

Ciências Sociais

# Descer a Rua
José Pacheco

Planódia
Sara Constança

Arquitectura e Design

# Anos 90
Benedita Feijó

O Moderno e o Vernacular Pragmático em São Paulo
- Lina Bo e o SESC Pompéia

Luiz Ricardo Florence

Arte e Entretenimento

# NRJ - "Não há outra rádio assim"
Paulo José

Guião: Os filhos de Gabriela – Os que nasceram e
os que imigraram para Portugal.

Marcelo Valadares

Espaço Criação

# Lomografia Férias 2010
Lomografia Portugal

Roupas Beras
Hugo Milhanas Machado


EDITORIAL
João Tibério

1. Se esta vida fosse uma equação
2. então
3. dez vezes nove daria noventa.
4. Seria noventa. Tal e qual como os anos
5. em que crescemos.
6. Lembrar-me-ia,
7. imediatamente,
8. das pessoas que na rua gritavam contra o muro.
9. Recordaria uma Berlim que nem tu, João Tomé, nem eu vivemos
10.mas que é nossa, por herança.
11. Mesmo que "Berlim nunca seja Berlim",
12. ela é tão nossa como a queda
13. de duas torres
14. num tabuleiro que afinal desconhecemos.
15. E tudo mudou nesse dia,
16. pois que não há "fim da história",
17. vitória da democracia,
18. do capitalismo,
19. muito menos fim dos extremismos
20. e radicalismos.
21. Tu bem sabes, ó Europa, que sangraste
22. como nunca
23. bem no centro do teu coração.
24. Foram pátrias recriadas
25. pela ambição desmedida de homens sedentos de poder,
26. colados a armas nacionalistas,
27. e sangue na mão de outros.
28. Hoje que o esquecimento despiu o negro de tudo,
29. e Salazar, Jugoslávia, escudo ou Cavaco
30. são recordações que fazem sorrir alguns.
31. Mas José Pacheco não absolve os culpados
32. deste presente
33. que nos dizem não ter futuro.
34. Somos nós que pagamos,
35. nós os que dizíamos que "NÃO PAGAMOS".
36. RGA, geração rasca, propinas, fundos da CEE, e Portugal fora da NATO,
37. são nossas as memórias antigas que se ouvem hoje, novamente.
38. Porque tudo retoma, porque tudo é cíclico, porque
39. "recordar é viver".
40. E Paulo José relembra a Rádio Energia,
41. os tempos dos piratas de am e fm que abriram caminho
42. aos tempos dos piratas da k7, walkman, CD e mp3.
43. Se esta vida fosse uma equação
44. então
45. dez vezes nove daria noventa.
46. seria noventa. Tal e qual como os anos
47. em que crescemos.
48. Lembrar-me-ia,
49. imediatamente,
50. dos filhos de Gabriela,
51. da Dona Flor, da Xica da Silva, da Tieta e do Roque Santeiro.
52. E se Marcelo Valadares relembra os filhos de Vera Cruz
53. para lá do samba dos domingos de futebol com Valdo, Jardel e Branco,
54. eu recordo a "geração de ouro",
55. tão repleta de valor como as memórias sentidas de Benedita Feijó.
56. E relembro noventa coisas mais.
57. E questiono porque se vive o passado tão intensamente?
58. E pergunto, como Sara Constança, "para que serve perguntar porquê quando nos parece que o necessário é saber como?"
59. E pergunto "para que serve a filosofia quando temos a ciência?"
60. E pergunto. E pergunto. Tudo. Até ao fim
61. porque "o mistério, aqui, está em delimitar com o máximo rigor o indelimitável".
62. E porque ser mulher é também encontrar os seus limites,
63. há que descobrir que casas se habita quando se evoca o feminismo, como Elisa Seixas.
64. E há que descobrir
65. ao ritmo alucinante
66. que marca os anos 90.
67. E há que redescobrir a São Paulo que mexe e remexe,
68. sem parar.
69. É a cidade paulista a visitar-nos, desta vez por Luis Ricardo Florence, e a tornar-se
70. cada vez mais nossa.
71. Porque os anos 90 são os anos da posse.
72. Dos direitos adquiridos.
73. Do telemóvel.
74. Do jipe.
75. Das férias em Quarteira.
76. Das vacas gordas.
77. Das fugas em frente.
78. E não pensar, não, que o amanhã nos apanhará,
79. quer seja num postal kodak
80. ou numa lomografia de férias.
81. "Porque esta vida é assim"
82. e "Ainda nos poder inventar o mar / é maneira única de dizer o que por ora temos / e nem temos outra coisa e nem queremos",
83. escreve Hugo Milhanas Machado.
84. E eu percebo
85. porque
86. se esta vida fosse uma equação
87. então
88. dez vezes nove daria noventa.
89. Seria noventa. Tal e qual como os anos
90. em que crescemos.

 

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