Id.entidades Há anos que tomo nota dos meus sonhos. Nem sempre o faço, porque eles se desfazem o mais das vezes antes que os possa agarrar e meter na gaiola. Mas quando o consigo, transcrevo-os para o papel, o mais secamente possível. Se alguma “poesia” aparece é porque já estava lá, não por eu ter a posteriori “embelezado” o texto. Registo o produto das entidades do meu Id porque: a) acho que ele resolve/reflecte problemas que cá estão há muito tempo, b) ou então responde a preocupações do quotidiano imediato, c) não sou daqueles que pensam que quando estamos a dormir estamos fora de jogo, d) por vezes os sonhos tocam a Forma Divina que, quando acordamos, esquecemos. Às vezes são narrativas quase perfeitas. Aliás pelo menos três sonhos já me deram, quase sem precisarem de quaisquer retoques, três contos publicáveis (e publicados). A saber: “Hotel Vitória” (1988), “Monzeit” (2008), “O Senhor Homem” (2009). Como diria talvez Luís XIV, se ainda tivesse cabeça para isso, “Le rêve c'est moi”. Aqui ficam, ainda em bruto, outras três amostras, estas inéditas. Os retoques – acreditem se quiserem – são mínimos, apenas tapei alguns nomes, como nas reportagens se ofusca o rosto das pessoas que não deram autorização para serem filmadas (neste caso, sonhadas). Por fim, após muitas voltas (e algumas frustrações, os sonhos são assim), lá chego ao ventre mais fundo da cidade. No ventre da cidade, há um túmulo onde vive o cerne da cidade – mas quando chego está em coma. Ou a dormir um sono profundo, que vai a dar no mesmo. Dão-me as boas vindas e dizem-me que faça as perguntas que quiser. Mas “as perguntas que quiser”, como?! O cerne da cidade está a dormir… Ou em coma. A sala não é o que eu esperava, mas também não posso dizer que não é o que eu esperava. Originalmente terá sido parte de uma arcada, não é muito grande, tem umas cadeiras em volta da redoma onde jaz um corpo de homem nem muito grande nem muito pequeno. A luz é acastanhada. Não sei, na verdade, se o cerne da cidade é aquele corpo humano que ali está ou se o cerne da cidade é uma forma informe escondida debaixo do corpo e o corpo é apenas um boneco de cera, para tornar mais fácil a quem ali chega a interlocução. O que sei é que fico para ali sentado um bocado e o cerne da cidade não sai do seu torpor profundo. Decido então (que remédio!) regressar eu à superfície. Sei que o bom senso diz que, a fazê-lo, o devo fazer devagar, porque há que ter cuidado com a pressão – para não rebentar um vaso sanguíneo, em certos casos a cabeça até pode explodir. Acho que não explodiu, mas acordo com dores na cabeça e uma vontade louca de urinar. E a casa de banho, como de costume, está ocupada. Vou à janela ver como está o tempo. E tudo faz de repente sentido. Lá fora, na cidade real, a chuva não pára de cair. “É uma tempestade”, diz uma mulher, a terceira, esta com a qual dormi, embora sem dormir, ou seja, ao lado de cujo corpo inerte dormi mas com a qual não sonhei. Por acaso sei os nomes das duas outras. Desta nem por isso, mas sei que devia saber. Porque é a minha mulher. As outras não: são as minhas duas mulheres de sonho. E quais serão os nomes daqueles com quem ela sonhou? Talvez esta noite o cerne da cidade me responda. Talvez eu não tenha ido suficientemente fundo, apenas tenha ficado com a impressão disso. Talvez hoje devesse perder o medo e tomar mais comprimidos. Mas lá fui, o encenador era meu amigo, não no sentido amigo da palavra mas no sentido alguém que conhecia e com quem tinha uma relação de cordialidade, e fazia questão de que eu estivesse lá, até para o caso de as duas turmas que iam assistir quererem colocar-me perguntas no fim. Como eu suspeitava, foi um desastre. Os actores não tinham convicção nenhuma, e assassinavam as palavras. Mais valeria que as dissessem apenas, só que nem isso. Comecei a ficar enervado, sobretudo a partir do momento em que – eu estava de pé junto à parede no meio dos alunos – comecei a ouvir apartes que eram tudo menos agradáveis. As pessoas não têm grande gosto mas, quando vêem uma coisa mesmo mal amanhada, conseguem ser bastante cruéis. E o pior é que, na maior parte das bocas, tinham razão. E o mais pior ainda é que, nestas artes colectivas, sobra sempre para o autor do texto. Por isso é que evito meter-me a fazer teatro – porque já sei o que a casa gasta. A gota de água foi quando um dos actores, por sinal o mais displicente, a meio do que devia ser uma acesa discussão conjugal se vira para mim – para mim! – e me interpela acerca de um pormenor do texto. “Ó Rui, eu não compreendo esta passagem. Importa-se de me explicar?” Não, já estou a contar mal, foi pior ainda: “Ó Rui, esqueci o que vem a seguir. Importa-se de me dizer as palavras e, já agora, de explicar o sentido? É que eu não sei, eu nunca estive casado, mas não vejo razão para estar agora a discutir com a minha mulher apenas por causa de um pormenor tão absurdo como a escola para onde vamos enviar o nosso filho.” Eu fiquei completamente boquiaberto. Já não bastava este idiota estar mal preparado, ainda por cima esquecera o texto e, para cúmulo, punha em causa coisas de que ele nada sabia, como a Arte e o Casamento? Primeiro fiquei apoplético. Faltou-me o ar. Depois comecei a ficar fora de mim, e gritei-lhe, tentei gritar-lhe, mas as palavras saíram-me a custo, como se estivesse com falta de ar: “Filho… da puta… Filho da… puta… Filho d…a puta!” Foi um escândalo. O actor fez que não era nada com ele, o encenador veio ter comigo a dizer que também não era razão para tal. Um estudante ao fundo, com ar de esperto, exclamou que eu devia era ter vergonha daquela merda de peça, em vez de andar a insultar pessoas. Perdi a cabeça. Tentei avançar, por entre o emaranhado de estudantes, para esmurrar um deles: o crítico ou o actor. Lembro-me de que atirei com um livro à cabeça do primeiro, mas não lhe acertei. Antes um sapato. E os outros protestaram: “Você devia saber aceitar as críticas!” E eu respondi (tentei responder): “Aceito quando são críticas!” O burburinho era reprovador e eu percebi que tinha estragado tudo. Não havia volta a dar. Se a situação péssima estava, lastimosa ficou. Poderia rematar dizendo: e foi assim que deixei de escrever para teatro . Mas não: foi apenas assim que acordei. A minha mulher está a almoçar com um tipo grande. Cumprimento-o e ele comporta-se de forma estranha. Mais tarde, quando nos voltamos a encontrar, pergunto à minha mulher o que se passa com ele. Ela suspira e diz que ele é seu amante “há uns dois, três anos”. É esta a sua expressão: “há uns dois, três anos”. Eu encolho os ombros. Por que motivo devia estar aborrecido? É a vida. À falta de melhor resposta, mostro à minha mulher um porco, e digo que é muito espertinho e que parece quase uma pessoa. O porquinho (é um leitão) sorri muito e tem de facto uma cara que lembra um bebé risonho, com reluzentes bochechas, e é muito afectuoso. E depois mostro-lhe também um bebé, este verdadeiro. Ela maravilha-se que o animal não faça mal ao bebé. “Muito pelo contrário”, digo, “Brincam muito bem juntos”. |
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